Eclesiologia
Material copilado por
Comendador
e Pastor Pedro Alves
Um estudo preliminar das doutrinas centrais referentes à temática
da igreja como resposta ao contexto evangélico e os tratamentos
sistemáticos existentes no mercado evangélico brasileiro. Material
preparado para uso em aula de teologia sistemática com alunos.
Eclesiologia
O
Reinar de Deus na Terra
Panorama do Estudo:
Neste texto, procurar-se-á oferecer ao aluno uma introdução à
eclesiologia, estudo teológico referente à igreja. Será dado
enfoque aos assuntos da natureza e propósito da igreja e seu
relacionamento com o reinar de Deus, bem como algum material de apoio
ao crescimento da mesma. Este estudo é apenas um levantamento
inicial, pois para cada subponto a ser levantado há muito mais para
se dizer e analisar. Nem todo aspecto necessário ao estudo será
abordado nesta apostila por questão de brevidade. Por esta razão, o
apoio de leituras paralelas e uma ênfase no diálogo com práticas
normativas na procura de uma metodologia e compreensão eclesiástica
em conformidade com os parâmetros bíblicos será indispensável.
Lembra-se ao aluno que o texto essencial para ser estudado é a
própria Bíblia, os livros textos sugeridos servirão de apoio na
sistematização do assunto.
Como também para todo esforço teológico, é essencial que cada
indivíduo invista para aplicar a teologia à sua realidade
específica. Não basta ter as respostas de outras épocas
concernentes às dúvidas e inquietações de outros contextos.
Importa saber aplicar o conhecimento teológico para dar resposta
apropriada aos assuntos do dia a dia e da vivência do indivíduo em
sua sociedade. Tratando-se do assunto de eclesiologia, a ênfase na
aplicação é até maior do que em outras áreas da pesquisa
teológica, pois trata-se de formas estruturais. Estas formas têm
muito a ver com contextos históricos específicos, incluindo
estruturas e questionamentos institucionais que têm variado muito ao
longo dos séculos.
Em cada etapa da história e desenvolvimento da igreja, têm surgido
necessidades de modificações organizacionais específicas para
facilitar que a igreja cumprisse com o seu propósito. O livro do
Rick Warren (Igreja com Propósitos) tem muito a ver com essa
noção em termos de fixar a atenção da igreja local no papel que
ela tem a cumprir. Essa perspectiva de olhar o propósito
estabelecido para a igreja deve reger também o estudo teológico da
eclesiologia. Assim, tratando da missão ou propósito e a natureza
da igreja, fornecemos uma base para investigações referentes aos
métodos e estruturas para facilitar que a igreja cumpra com a sua
missão designada.
Este, portanto, será o alvo do estudo presente: descobrir a
definição bíblica referente à natureza e missão da igreja, para
que se possa estudar com mais atenção as formas e os métodos a
serem empregados no cumprimento da tarefa. Uma vez que a definição
de natureza e missão forem delineadas, podem-se medir questões
organizacionais e metodológicas em consideração ao alvo a ser
atingido.
Livros Textos:
Apresentar-se-á neste trabalho um resumo parcial dos conteúdos
elaborados pelos autores referidos, como também uma crítica ou
complemento a certas posições tomadas e levantadas. Cabe ao leitor
analisar as propostas fornecidas e elaborar as suas próprias
conclusões para adequar a sua prática e compreensão ao testemunho
bíblico. Diálogos com perspectivas e propostas diversas ajudarão o
leitor a ter uma compreensão melhor da natureza e do papel da
igreja. Assim terá mais facilidade para aplicar os ensinos bíblicos
às realidades de suas próprias comunidades de fé—o povo de Deus
reunido para cumprir a sua missão. Indica-se os seguintes livros
para um acompanhamento do estudo aqui elaborado:
Introdução Geral:
É necessário antes de começar o estudo específico da eclesiologia
primeiramente tratar algo da problemática associada à disciplina.
Com esse pano de fundo pode-se melhor tratar a matéria a ser
estudada. Toda teologia é elaborada sobre alguma base
pré-estabelecida. Clarificando esta base sabe-se melhor como
avaliar ou analisar as conclusões formuladas nas etapas finais do
estudo.
Definição do Termo: Do grego vem o termo igreja que se usa
em vários contextos e com vários sentidos no português. O termo
pode vir a designar uma congregação local, uma denominação, uma
causa, a igreja de caráter universal ou “invisível” ou até um
prédio onde se reúne um grupo de adoradores. Em cada contexto
deve-se assegurar qual o uso que se faz do termo. Usaremos aqui como
definição prática de igreja, “um agrupamento de crentes que
vivenciam um relacionamento de dependência (fé) em Jesus Cristo,
unindo-se para cumprirem a missão entregue por Deus”.
Institucionalismo: Na Bíblia, a igreja não é uma
instituição, mas um organismo vivo que se vai transformando em
termos organizacionais. De certa forma a igreja é, conforme
implicação de Romanos 9.25 e 1a
Pedro 2.9-10, o povo de Deus em desenvolvimento. Logo, ao tratar da
igreja, é necessário tratar de dois aspectos da mesma: o organismo
e a estrutura organizacional que se vem desenvolvendo naturalmente.
Esta é necessária, mesmo que não deva ser vista como o aspecto
principal.
Origem Bíblica do Termo para Igreja: O texto bíblico no
português usa o termo igreja, mas as conotações originais do termo
muitas vezes estão perdidas na tradução. O conceito básico do
termo hebraico qahal (l h q )
e também do grego ekklesia (ejkklhsiva
) é de uma assembléia, tratados por muitos no sentido de
“comunidade”. Geralmente se pensa em termos de haver uma
convocação de caráter político, sendo uma reunião do povo para
decidir ou ouvir decisões de importância geral para o mesmo. Não
existe no Antigo Testamento o que propriamente se chamaria de igreja,
já que o conceito é do povo como um todo pertencendo a YHWH
(hwhy)
como nação. Nesse contexto, emprega-se o termo hebraico ‘edhah
(hd;[e ), que designa o povo de
Deus, seja reunido ou não. Na época do exílio, o termo qahal
(lh;q );
vem a ser empregado com esse mesmo uso também, mas nunca como uma
instituição1.
No caso do Novo Testamento, quando se trata da igreja em sentido
universal ou mesmo local o termo usado é normalmente algo como
“santos” ou “eleitos”, em lugar de “igreja” (ekklesía),
aproveitando também expressões como “noiva” ou “povo de Deus”
especialmente ao tratar da igreja em sentido universal. Portanto, é
necessário ter cuidado ao procurar sistematizar ensino bíblico a
partir de um estudo do emprego do termo bíblico “igreja”, já
que o conceito igreja é comumente tratado com outros vocábulos e o
uso que se faz do termo igreja nem sempre é o que se espera a partir
do português.
Linguagem Figurada: A Bíblia está repleta de figuras para
ajudar o leitor a compreender conceitos espirituais. A exemplo deste
fato, João capítulo 3 registra o diálogo entre Jesus e Nicodemos,
o qual não compreendia as palavras de Jesus. Este explicou-lhe o
conceito de três formas diferentes para que pudesse compreender uma
verdade espiritual que fugia de sua experiência. Tratou de ser
necessário nascer de novo, especificou uma distinção entre a
existência física e espiritual e logo tratou um exemplo de
confiança em Deus como a única saída para a vida.
Assim também o ensino bíblico referente à eclesiologia é expresso
na Bíbila utilizando várias figuras que ajudam a transmitir o
ensino, mas que não devem ser forçadas a obedecer uma interpretação
de caráter rígido, por questão dos limites da linguagem figurada.
Quando Jesus aproveita o termo “reino”, obviamente não pretende
tratar do exercício teocrático de uma estrutura governamental sobre
a terra. Quando o texto bíblico trata dos portões do inferno não
prevalecerem contra a ofensiva da igreja, também não se deve
preocupar em definir um local geográfico com muros e portões em
volta do inferno. São figuras que servem para ilustrar o conceito
específicado, não descrições de caráter literal. Em qualquer
estudo bíblico, e portanto teológico, deve-se respeitar estas
formas de expressão, não forçando cada palavra a exprimir somente
um sentido descritivo literal.
Formas e Propósitos: Em certos casos do estudo da
disciplina, encontrar-se-á certas formas de organização ou
estrutura na Bíblia que divergem da prática comum atual. Deve-se
fazer em tais casos uma avaliação do propósito da forma,
estrutura, cargo ou atividade descrita. Tal propósito pode estar
sendo desenvolvido com outra metodologia, estrutura ou forma na
igreja atual, sem que haja qualquer incompatibilidade com o ensino
biblico. Em tais casos, não há necessidade de alterar a prática
atual, desde que esta esteja cumprindo com o seu propósito devido,
sempre em conformidade com o encaminhamento bíblico. Em alguns
casos, pode ser que os cargos e formas organizacionais usem de
estratégias bem parecidas à forma original. Deve-se novamente
olhar para a questão do propósito a cumprir. Uma forma ou
estrutura pode capturar a essência de seu propósito como também
pode ser um desvio do mesmo. Deve-se procurar definir a razão da
prática para averiguar se a continuidade é o mais devido, pois é
sempre possível que até uma estrutura aparentemente igual à do
Novo Testamento perca sua eficácia se apenas for reassentada no
contexto atual. Em outros casos uma estrutura pode não ser
prejudicial em si, mas pode tampouco estar contribuindo para o
crescimento do reino de Deus. Se assim for, deve-se analisar bem
para acertar que a estrutura tem um propósito a cumprir e que este
seja coerente com a missão da igreja, não sendo um desvio de
energias, mesmo que gostoso.
Conceitos Especiais na
Eclesiologia:
No estudo de eclesiologia deve ser visto em especiais certos
conceitos específicos. Talvez o conceito mais importante a ser
estudado é o conceito do “Reino de Deus”. Este conceito é
também essencial ao estudo da escatologia, mas será primeiramente
tratado aqui, devido a sua aplicação em termos da vida da igreja
como o povo de Deus. Em decorrência do tratamento aqui se aplicará
depois no contexto escatológico.
“O Reinar de Deus”:
A igreja autêntica existe como a concretização do reinar de Deus e
não pode existir desvinculação deste reino. É na vida da
igreja—o povo de Deus—que o reinar de Cristo tem forma e
exercício. O conceito do Reinar de Deus é a categoria principal no
estudo da escatologia2,
porém é na igreja que este reino tem o seu começo e a sua
concretização primária. “No Novo Testamento, o reino de Deus é
principalmente o seu reinar nas vidas daqueles que se submetem à sua
autoridade”3.
Logo o termo “reino de Deus” pode ser definido como o Seu
“governo em ação”4,
ou o “reinar de Deus”4.
Segundo as declarações de Jesus, o Seu reinar já é “uma
realidade na história humana”5.
Deus já reina entre o povo, mesmo que não de forma política ou
teocrática no sentido ideal da aliança sináptica. O povo de
Israel dava muita ênfase à questão de viverem diretamente sob o
reinado de YHWH, mas pode-se ver que esta realidade nunca teve
uma concretização plena. Quando as multidões queriam fazer de
Jesus o seu rei, Ele não aceitou tal proposta por ser um desvio
completo do propósito maior do seu ministério6.
Perante Pilatos, negou de novo que seu reino fosse como os reinos
deste mundo7.
O seu reinar era uma questão do interior, não da relação
nacional externa8.
João, o Batista, chamou o povo judeu a se tornarem filhos de Abraão
e não confiarem em sua herança nacional9,
mas Jesus leva o conceito mais adiante, rejeitando a ideia da
identificação do Messias com um rei de força política10,
enfatizando a aceitabilidade dos rejeitados pela sociedade11
e a transformação interior do indivíduo12.
De modo igual, a igreja deve espelhar o compromisso interno de cada
indivíduo para aceitar a sua participação e integração no povo
de Deus. Este compromisso é uma questão da aplicação do reino na
vida do indivíduo. A igreja é por consequência o agrupamento ou
reunião dos membros ou cidadãos do reino. A igreja não é o
reino, mas ela é criatura ou veículo para a extensão do reinar de
Deus. O reinar de Deus na vida humana cria a comunidade
pertencente ao reino, a qual chamamos de igreja.
A fé bíblica não é institucional13,
porém é indiscutivelmente comunitária14
enquanto individual15,
e é nesse contexto que o reinar de Deus existe no mundo. O reino
começa na vida do indivíduo, mas é levado adiante no contexto
comunitário do reinar de Deus. “A relação entre a igreja e
Cristo é de fato muito íntima; trata-se de uma espécie de união
orgânica, pela qual nos unimos a ele em nossa vida e nosso ser”16.
Pode-se falar desta união em termos individuais, mas a Bíblia
também trata da união seriamente em termos do corpo inteiro da
ekklesia de Deus.
O Reinar não é apenas uma realidade que se aproxima no contexto do
ministério terreno de Jesus, mas é também algo que é
concretizado17.
É um tanto impreciso marcar a data da inauguração do reino, mas
pode-se entender a inauguração no evento de pentecostes—a festa
dos primeiros frutos. É de interesse notar que Lucas nunca aplica o
termo ekklesia no seu evangelho, mas emprega o termo em Atos.
É na descrição do evento de pentecostes que Lucas aparentemente vê
inaugurado o reino, agora empregando o vocábulo ekklesia em
relação àqueles que aceitam o reinar de Deus em suas vidas através
de Cristo. Aqui, o reinar de Deus tem uma ferramenta ou vivência
concreta na igreja que surge. Esta igreja é ferramenta do reino
para levar a mensagem do reinar de Deus perante todas as nações em
conformidade com Atos 1.8.
O chamado “reinar de Deus” e o “reinar dos céus” são
precisamente a mesma coisa. “‘Céu’, no primeiro século, era
um sinônimo comum de ‘Deus’ entre os judeus piedosos, que
consideravam o nome de Deus demasiado santo para ser pronunciado”18.
Compreendiam que Levítico 24.16 impedia a pronúncia do nome de
Deus, tal para evitar cair em juízo19.
Os termos para céu no hebraico e grego, “ m
y m c e oujranovs são
usados basicamente de três maneiras na Bíblia”: referindo-se à
estrutura do universo; como sinônimo de Deus e como a morada de
Deus20.
Olhando para Lucas 15.18, podese ver claramente que esta referência
é feita especificamente a Deus, não à expansão estrutural acima
das núvens, pois o filho havia pecado contra os próprios
mandamentos de Deus.
É comum haver certa confusão referente ao Reinar, especialmente em
termos de seu tempo. Nos evangelhos, o reinar de Deus é tratado
simultaneamente em tempo presente e futuro, mesmo que em sua maior
parte seja tachado em termos de uma expectativa futura:
[Mateus 12.28 e Lucas
11.20] aparentemente indicam que o reino não apenas está perto, mas
que há realmente chegado. … O reino está perto no sentido de que
não há sido consumado; está presente no sentido de que o poder de
Deus que o caracteriza havia começado a manifestar-se nas palavras e
ações de Jesus e continua a fazer o mesmo na igreja21.
Quando a Bíblia trata de épocas após o ministério de Jesus, visa
menos futuricidade do que quando referencia o reino em época do seu
ministério. Ao mesmo tempo, permanece a expectativa de um
complemento à realidade do reino já experimentada nas vidas dos
crentes. Tal expectativa, porém, encontra a sua expressão na base
daquilo que Jesus já havia realizado.
“A confissão cristã não
é apenas de que Cristo virá ao final da história, mas que Cristo
já veio; não apenas que a salvação espera o crente no futuro
escatológico, mas que a salvação já é experimentada, numa forma
antecipatória, porém real, no aqui e no presente, no meio de
problemas e não apenas ao seu fim. … O presente é moldado não
apenas pelo passado, mas também pelo futuro de Deus”22.
Jesus pregava muito referente ao reinar de Deus. Em conseqüência,
esse reinar é uma temática especial dos evangelhos sinópticos,
porém principalmente do livro de Mateus, onde encontra-se a terceira
parte das referências neotestamentárias ao Reinar de Deus/dos
céus23.
Os discípulos continuaram a temática do reinar divino, como vemos
na preservação sinóptica do ensino. Para Jesus, a temática era
urgente. Ele queria preparar os discípulos para esta vida. “O
reino estava vindo, e o único aspecto especialmente ressaltado foi o
arrependimento…. Em comparação com o reino [de Deus], nada
realmente tem valor”24.
A ênfase de Jesus sobre o reinar visava a clarificar e oferecer
resposta a dois erros essenciais—a preocupação em termos
judiciais com o mundo por vir que se desvinculava da interiorização
dos princípios do reinar de Deus e a expectativa messiânica
politizada dos judeus da época. A ênfase de Jesus não recai sobre
rituais de ingresso ao reinar, mas no viver esta qualidade de vida
expressa na frase “vida das eternidades”. O elemento essencial
desta vida é a sua declarada dependência de Deus para suprir todas
as necessidades daquele que se entrega a serviço do reino. O
ingresso no reinar era muito importante no seu ensino, mas em sentido
de alerta para que o indivíduo verificasse que ingressaria no
reinar. O judeu que procurava pela politização do reinar de Deus
não encontrava consolo nas palavras de Jesus, pois as
características do viver sob o reinar de Deus eram contrárias às
expectativas de libertação política e da dominância dos
opressores. Viver esta condição de vida entregue a Deus é a
salvação que Jesus oferece. O reinar de Deus já começou, mas não
acaba neste lado do túmulo. A salvação não é apenas futura—ela
oferece o meio de viver no presente sob o senhorio divino, já
desfrutando de comunhão íntima com Deus. A vida das eternidades já
começou a ser vista e vivenciada na vida do povo que ingressa neste
reinar de Deus. No outro lado da morte é apenas mais vívida e
direta.
Em outras partes do Novo Testamento, o ensino direto sobre o reinar
não vem a ser tão notório, mas é o ensino referente à vida no
reino que gera a moral e a ética na prática da vida cristã tão
visível nas epístolas paulinas e joaninas, bem como a carta de
Tiago25.
Em Apocalipse, encontra-se uma mensagem referente ao reino
semi-invisível de Cristo, colocado como sendo a realidade maior do
que o reino visível do governo imperial. A mensagem do Apocalipse é
um chamado para respeitar o reinar de Cristo com toda sinceridade,
mesmo que não se possa enxergar o Seu reino tão claramente.
Deve-se ter sempre presente que o ensino de Jesus referente ao reinar
de Deus vinha responder as preocupações messiânicas judaicas
referente a um reino político terrestre. O anelo dos discípulos
registrados em Atos 1.6 é o clamor do judeu que esperava a
independência da nação da opressão política romana: “Senhor, é
neste o tempo que restauras o reinar a Israel?” Mesmo depois da
ressurreição era difícil para que compreendessem o caráter desse
reinar do qual Jesus tanto falara. Jesus havia dito a Pilatos que o
seu reinar não era deste mundo, mas era uma mensagem difícil para
os discípulos compreenderem.
Criticar os discípulos é fácil, pois já vivenciamos que não
houve a inauguração de um país teocrático com Jesus atuando
políticamente. Mesmo assim, é difícil compreendermos o reinar de
Deus, pois insistimos em designar o reinar em termos da história
política humana. O reinar que Jesus pregou é de caráter interior,
uma vida entregue aos cuidados de Deus. Ingressa-se no reinar
divino ao aceitar o pacto ou aliança oferecido por Jesus. As
exigências desse reinar são contrárias aos valores da sociedade à
nossa volta, pois são valores espirituais e relacionais, não
materias e físicos.
O reinar de Deus depende de uma entrega relacional a Deus como Pai
amoroso. Depende de uma obediência e disposição de desprender-se
do ego, procurando dar primeira importância aos demais, mantendo-se
em último lugar. É um relacionamento de confiança e
desprendimento, um desprendimento que concede a oportunidade para
servir ao próximo em amor e sinceridade.
O discípulo fiel pode servir e doar-se ao próximo, pois a sua vida
não pertence a si, pertence a Deus. Este pode perdoar a ofensa
feita a si, pois não defende privilégios e direitos pessoais. Pode
doar a sua capa, caminhar mais uma milha, oferecer a outra face, e
até amontoar brasas vivas para ajudar o inimigo preparar o seu fogo,
pois nada lhe pertence. O cidadão que tem Jesus como seu Rei pode
dispor sua vida a serviço do próximo, pois não é nada mais do que
mordomo das bênção de Deus. Como o reinar de Cristo não pertence
a este mundo, também o cidadão do reinar de Cristo aceita pertencer
a outro mundo e outro padrão de vida e valores.
O reinar de Deus é interno e difícil de definir, pois é como a
real adoração de Elias, um de sete mil que não haviam dobrado os
seus joelhos a Baal, mesmo quando a nação se tornara idólatra. O
rei de Israel não seguia em retidão, mas YHWH (h
w h y ) ainda reinava na vida de alguns. Dois reinados
existiam em Israel, mas apenas alguns disfrutavam da realidade do
reinar de Deus. É essa qualidade de reinar que Jesus inaugurou.
Não o externo, mas a entrega interna para seguir a Deus em
fidelidade, confiança e dependência.
O reinar de Deus já foi inaugurado. Já é hora de optar pela
cidadania celestial. É uma cidadania a ser prestigiada e vivida já
e para todo sempre.
Ig Ass tabernáculo de Davi
Pastor Pedro Alves
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