Total de visualizações de página

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

DOUTRINA CRISTÃ EM FOCO (Eclesiologia) III

Efésios 4.11-16:
Nesta passagem de Efésios, encontra-se uma descrição breve da provisão de Deus para que a igreja cumpra com o seu mandato e a sua missão. Foram dados à igreja vários cargos para ajudá-la em seu crescimento, possibilitando-a a cumprir com a sua tarefa.
E ele deu por um lado os apóstolos, por outro os profetas, por outro os evangelistas, por outro os pastores e professores1, para a equiparação dos santos no labor de ministério, na construção do corpo de Cristo, até chegarmos nós todos na unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, no varão perfeito, na medida da maturidade do enchimento de Cristo; para não mais sermos crianças, vaciladas e carregadas por todo vento de ensino, no jogar de dados dos homens, em astúcia para o engano do errante; mas falando a verdade em amor, cresçamos nEle nós todos, quem é a cabeça, Cristo, de quem todo o corpo ajuntado e encaixado por toda junta, o suprimento, conforme poder, na medida um para cada parte, o crescimento do corpo é feito para a edificação de cada um em amor2.
Também conforme Romanos 12 e 1a Coríntios 12, tanto os cargos em sentido de dons para a igreja como os dons espirituais têm função interna na igreja. Os encargos e os dons especificados são para a preparação da igreja para que ela cumpra a sua missão. Os apóstolos, evangelistas, profetas e pastores-mestres tem um papel específico de preparar o corpo inteiro para desempenhar a sua tarefa missionária.
Por tarefa missionária, não se pretende limitar a idéia de missões como sendo transcultural, mas enfatizar a questão de levar o evangelho para fora da igreja. É a igreja no mundo que cumpre com o seu papel de discipular as nações ao sair do seu local de reunião. No convívio local da igreja, o enfoque é de preparar os membros para os seus deveres de pregar a palavra de Deus no seu local de trabalho, na sua jornada escolar, na sua atividade comercial. O cantar, o celebrar a grandeza de Deus, o estudar e ouvir a Palavra de Deus pregada—tudo deve levar o inidvíduo a estar mais apto para não só colocar o evangelho em prática na sua vida, mas transmitir a mensagem aos demais.
A tarefa principal da igreja permanece “lá fora”. O conceito da prática eclesiástica comum, porém, está voltado completamente para dentro. Até se fazem cultos com o visitante sendo o alvo, procurando usar o evento comunal da igreja para incluir o visitante no corpo de Cristo. O conceito bíblico não poderia ser mais diferente. Em Atos 4.29-33, os discípulos se reuniram para se prontificarem a dar o seu testemunho perante todo o povo. Esta é a mesma idéia que se encontra em Efésios. A igreja se reúne para se prontificar a levar a mensagem de Cristo para o mundo ao seu redor.
Institucionalismo Eclesiástico:
Tem sido observado que a igreja de Cristo é mais organismo do que organização. Infelizmente, a prática eclesiástica muitas vezes contraria esse conceito essencial. Várias passagens bíblicas espelham o mesmo conflito entre as modalidades institucionais da fé em contraste com as realidades da fé vividas no quotidiano. Um bom começo para essa investigação seria Abraão e os demais patriarcas.
No livro de Gênesis, os patriarcas em geral parecem adorar a Deus de uma forma isenta de institucionalismo. Onde quer que estejam, eles constroem altares rústicos para oferecerem sacrifícios de forma aparentemente espontânea. De modo geral, não existe qualquer clero ou sacerdote oficiante para dirigir ou pronunciar a aceitabilidade de suas ofertas, orações ou posicionamentos. O único caso que foge desse paradigma é o dízimo de Abraão a Melquisedeque. Tal evento é o mais próximo que temos a um padrão de culto institucional entre os patriarcas. Esse meio de adoração tem os seus momentos altos bem como os baixos nos exemplos de Isaque, Esaú e Jacó, porém Abraão é tido como o pai da fé pelos judeus em geral e por Jesus em específico.
No período do Êxodo, a forma não institucional ou programática sofreu certas alterações no contexto de um culto normativo e aliança perante um povo numeroso. Mesmo esta estrutura, porém, não obedece à rigidez institucional dos povos vizinhos. O livro de Levítico é um exemplo supremo desse princípio. Ali, todas as regras mínimas para a oficialização das ofertas e sacrifícios são colocadas de forma aberta perante a massa do povo. Não há qualquer informação oculta do povo e qualquer um poderia cumprir com os rituais e oficiar o seu próprio culto a YHWH (h w h y ). O povo como um todo é nação sacerdotal, mesmo que existam sacerdotes oficiais para atuação no Tabernáculo e depois no Templo. Na realidade, a prática de altares pessoais com o exercício pessoal de oferecer ofertas e sacrifícios pode-se ver longe do Tabernáculo em Juízes e 1a Reis 3. Até a construção do Templo de Salomão, qualquer lugar servia como lugar próprio para adorar a Deus e para a construção de altares de sacrifício.
Em 1a Samuel 3, Eli está julgando Israel, sendo o proeminente sacerdote do povo, concentrando um certo poder político junto com o cargo clérico. A institucionalização do culto, porém, não encontra aceitação completa perante Deus. O texto diz que já era rara a voz de YHWH naqueles dias. Em lugar de utilizar a forma oficializada da religião, Deus chama ao jovem Samuel. Eli estava aparentemente invocando a presença e palavra divina. Mesmo assim, Deus escolhe ignorar as suas tentativas de incubação para atender àquele que está prestes a ouvir e atender, não ao clero oficial. A forma religiosa externa não é eliminada, mas existe por trás da cena um movimento de fé real que caminha em paralelo ao culto oficial formalizado.
Esta mesma temática aparece mais adiante em 1a Samuel 17, onde Deus agora convoca Samuel a deixar o rei Saul em exercício e seguir adiante para ungir o novo libertador que YHWH está pronto a utilizar. Saul permanece oficialmente como sendo o rei de Israel, mas é através de Davi que Deus atua para conseguir a libertação do povo perante a ameaça filistina. Davi é o veículo de libertação nos moldes dos juízes, agora em oposição à estrutura política e eclesiástica oficial da nação.
Começa em 1a Reis 3, no início do reinado de Salomão, uma certa união da estrutura política com a religiosa a partir da centralização do culto no templo que Salomão pretendia construir. Neste período, o Templo toma o lugar dos altares particulares e centraliza o culto em padrões oficiais da instituição religiosa. No decorrer dos reinados, haverá uma crescente distância entre a forma oficial religiosa e o culto real a YHWH. Os reis começam pouco a pouco a se desviarem de YHWH, seguindo e estimulando culto aos ídolos de sua volta. O auge do desvio se vê na época do profeta Elias e do rei Acabe.
Nos dias de Elias, descritos essencialmente em 1a Reis 17-19, a estrutura religiosa e política oficial está longe de prestar atenção a YHWH, enquanto restam pelo menos 7.000 homens fiéis a Deus. Elias encontra-se deprimido pela ausência de pureza e fidelidade a YHWH nas estruturas oficiais, mas é alertado que Deus não se preocupa com as instituições humanas. Deus ocupa-se dos indivíduos dentre o povo que se mantém fieis em serviço e adoração real. Deus pode não estar no lugar esperado, nem aparecer da forma esperada. Mesmo assim, Deus está presente, não deixa desamparado o remanescente fiel.
Eliseu, Jeremias e os profetas menores seguem a mesma temática, chamando o povo de volta a uma adoração real e sincera, muitas vezes despreocupados com as formas institucionalizadas do culto—a religião oficial do povo. No período de Eliseu, parece que nem existe uma forma organizada de culto a YHWH. O rei está cercado de sacerdotes e profetas, mas todos parecem falsos, a não ser Eliseu.
Em Mateus 5-7, Jesus toca na mesma temática, que também havia sido tratada por João Batista. As formas externas da religião não serviam para nada. O interesse real era o compromisso interno do indivíduo perante Deus. As formas externas do reinar de Deus não tinham tanta importância como a disposição interna de confiar em Deus. No capitulo 28, as palavras de Jesus revelam o mesmo tipo de pensar. Em Atos, Lucas descreve a mesma preocupação de Jesus em outras palavras. Ele reflete ainda mais a despreocupação com o reinar visível de Deus (no reino político terrestre), enfatizando o testemunhar da identidade e mensagem redentora de Deus, não a construção de órgãos oficiais.
Olhando bem, Jesus tem críticas severas para os líderes religiosos do seu tempo. O problema não era inerente às estruturas em si, nem o haver ou não liderança específica ou capacitada. A razão da crítica se radicava no distanciamento que o institucionalismo havia posto entre as formas religiosas e o relacionamento do indivíduo com Deus. Estruturas sempre existirão e sempre serão necessárias, mas elas nunca deveriam ser um fim em si. Assim não se deveria deixar que o relacionamento com Deus se transforme num relacionamento com uma estrutura, uma organização, uma instituição ou com um padrão de conduta externa (legalismo). Para tanto, as estruturas precisam sempre estar sob reforma e readequação, procurando sempre a forma mais adequada para encorajar o indivíduo no seu relacionamento de dependência de Deus e no cumprimento da missão. Nunca deve-se deixar que as estruturas tomem o lugar do compromisso interior com Deus.
Nos primeiros séculos depois de Cristo, o evangelho cresceu espantosamente no mundo grecoromano. Não havia rigidez de formas e estruturas específicas, mas havia vários tipos de formas organizacionais. Cada grupo de cristãos procurava o método mais apropriado para suas reuniões e a realização da missão que Deus havia entregue aos servos—“Discipulai as nações”. Quando Constantino institucionalizou a igreja, oficializando o cristianismo como religião do Império Romano, houve uma mudança na preocupação com a expansão da igreja. Na verdade, as mudanças haviam principiado antes da oficialização do cristianismo, num movimento institucionalizante que estava já começando a reinar no mundo cristão. Com a oficialização, houve uma politização religiosa. Nesse quadro político, a igreja perdeu o seu ímpeto e zelo missionário, ocupando-se mais com o poder e o controle de suas conquistas. Perdeu-se a missão com um enfoque interno visando à manutenção.
O grande perigo das instituições, organizações e estruturas do evangelho é de perder de foco a missão e prestigiar a própria estrutura mais do que a dependência de Deus. Estruturas e programas não são o evangelho. Instituições e organizações não são o reinar de Deus. O reinar de Deus é no interior do indivíduo. Este procura formas de dar expressão ao reinar de Deus em sua vida. O problema é de confundir a expressão externa com a realidade interna. Quando tal acontece, a vida sob o reinar de Deus é transformada em ativismo e manutenção de estruturas religiosas da criação do ser humano.
Começamos a transformar a imagem de Deus, servindo ao trabalho de nossas próprias mãos3.
Ordenanças da Igreja:
Ao tratar temas de ordenanças e sacramentos da igreja, é necessário primeiramente fazer distinção entre os dois termos. Por sacramento, entende-se um ritual que transmite a graça salvífica de Deus, não apenas como ritual simbólico4. Graça nesse sentido pode-se quase definir como uma substância a ser medida ou parcelada. Por ordenança, comunica-se de forma contrária que a graça não é substância, mas uma disposição relacional divina. Como Barth usa o termo, “Graça é o relacionamento de Deus com o homem que não admite concessão”5. A ordenança, portanto, não é salvífica, enquanto que o sacramento é considerado como um ritual que contribui para ou confere a salvação.
Ainda tratando algo da distinção entre sacramento e ordenança, o sacramento depende mais do caráter e da autoridade do oficiante. Somente o sacerdote legítimo teria como oferecer o sacrifício aceitável, e apenas o sumosacerdote poderia entrar no lugar santíssimo. Na questão da ordenança, no entanto, a especificação do oficiante se perde. A colocação de Paulo em 1a Coríntios 1.14-17, a identidade do indivíduo que oficiava o batismo não era de grande importância, não fazendo parte de sua missão ou comissão6. O mesmo se aplica à questão da ceia, especialmente lembrando que a origem da ceia era uma refeição em família, onde o chefe da casa administrava a ceia para toda a família7. A instituição da páscoa nunca teve especificação sacerdotal, a não ser na questão do sacrifício do cordeiro, e isso apenas em épocas específicas da história judaica.
Falamos das ordenanças da igreja em parte por serem rituais simbólicos deixados por Jesus a seus discípulos. Por outro lado, tratamos as ordenanças em resposta à listagem de sacramentos da Igreja Católica. Fazemos de imediato uma distinção entre os ítens da lista realmente deixados por Jesus e em conjunto uma distinção de seu sentido. Usamos a palavra ordenança em diferenciação do termo sacramento, já que não se concebe em círculos batistas que os rituais sejam veículos de graça (como se a graça fosse uma substância a ser parcelada). As ordenanças que se aceitam da lista, no entanto, são rituais mais do que ordens deixadas por Jesus à igreja. Tratar-se-á aqui dos rituais simbólicos do batismo e da ceia, porém, deve-se lembrar que é necessário manter em conjunto com esses dois rituais um apreço às demais ordenanças não-simbólicas: fazer discípulos, amar ao próximo (inclusive os inimigos), dar a César o que provém de César, dar a Deus o que provém de Deus, etc..
Romanos 6.1-11:
A passagem central da Bíblia para tratar da essência do batismo é Romanos 6.1-11. Por norma, lidase com a definição do termo grego (baptivzw ) como sendo “imergir”, “submergir”, “mergulhar” ou mesmo “colocar de molho”78. Vale lembrar que o termo pode também denotar aspectos de “lavar”, não sendo completamente necessário designar o termo no sentido estrito de um mergulho completo num fluido8. Ao mesmo tempo, tal uso do termo seria mais restrito, não podendo ser colocado como intenção normativa para o emprego do termo.
Na passagem de Romanos, o texto pode ser melhor traduzido e compreendido no sentido de “participar de” ou “ser unido a”, assim espelhando algo do caráter simbólico do ser envolto num fluido. Nestes termos, oferece-se a seguinte tradução do texto:
O que, portanto, diremos? Permaneceremos no pecado para que a graça superabunde? Jamais aconteça! Quantos morremos para o pecado, de alguma forma ainda viveremos nele? Ou ignorais que quantos participamos (ejbapt ivs qhmen) em Cristo Jesus9, na sua morte participamos (ejbapt ivs qhmen)? Portanto, sepultados com ele através da participação (bapt ivs mat o") em sua morte, para que como foi levantado Cristo da morte através da manifestação do Pai, assim tambem nós em novidade de vida caminhemos. Pois se unidos fomos feitos na similitude da sua morte, quanto mais da sua ressurreição seremos. Isto reconhecendo, que o nosso antigo homem foi crucificado junto, para abolir o corpo do pecado, não mais nos escraviza o pecado, pois o morto foi declarado justo em relação a seu pecado. Mas se morremos com Cristo, cremos que também viveremos com ele. Percebendo que Cristo foi levantado dos mortos, não mais morre. A morte dele não mais domina. Quem, pois, morreu, ao pecado morreu de uma vez por todas, mas quem vive, vive para Deus. Assim também vós, considerem-se a si mesmos mortos deveras ao pecado, mas vivendo para Deus em Cristo Jesus10.
Porque trabalhar toda esta passagem para delimitar o uso de um termo que aparece três vezes só no começo? Primeiramente, pode-se ver que há outros termos utilizados em paralelo com o termo baptivzw em sentido de “participar em” ou “unir-se a”. A passagem como um todo reflete o conceito de estar unido a Cristo, vivendo em união com Ele. O emprego do termo batizar, portanto, reflete aqui o contexto desta união. Geralmente se discute a questão da morte de Jesus equiparar a ou valer pela morte do indivíduo para o pecado, mas o tema aqui vai além dessa compreensão limitada. A ênfase é de que o indivíduo participa plenamente da vida, morte e ressurreição de Cristo, bem como vive em plena união com Cristo.
Paulo emprega aqui duas formas do termo batismo ( baptivzw ), não acrescentando um significado de união, mas traçando um elo com um significado já existente ao emprego do termo e da prática. O tratamento do significado como “mergulhar para dentro de” já está ligado com o conceito de união, mas a prática originária do batismo também.
Já se tratou a questão do emprego do termo “batizando” na Grande Comissão referenciar a conversão do indivíduo, espelhado no ato de lavar-se de sua vida e prática religiosa antiga para ingressar em uma nova vida (tanto em termos de conceito religioso, como de prática moral). Em geral, fala-se somente sobre o lavar-se do antigo, mas o batismo também é símbolo de um novo revestimento. O indivíduo lava-se do antigo, vestindo-se do novo. O prosélito ao judaismo que se batizava estava por um lado rejeitando o seu passado, mas pelo outro lado unindo-se à sua nova vida de participação na aliança com Deus11.
Esta participação na aliança espelha a questão veterotestamentária da circuncisão, sendo um ritual externo vinculado a conceitos de limpeza e moralidade. Há também a reflexão na celebração da ceia de Senhor de participação na nova aliança no sangue do seu sacrifício. Assim, o batismo era um vínculo, ou expressão externa da aceitação da aliança proposta por Deus—uma forma externa de visualizar e proclamar em público a conversão de vida.
João, o Batista, pregava ao judeu sobre a necessidade de arrepender-se e vir a participar da aliança como se fosse um prosélito. Tal arrependimento incluía tanto a questão de lavar-se de sua dependência na sua genealogia, nos seus costumes e nas suas tradições, como também incluía a questão de inserir-se dentro da aliança de forma comprometida.
Nesta luz, o batismo é mais do que mergulho temporário na água e mais do que o livrar-se de um passado de descomprometimento e falta de confiança em Deus. É também símbolo de participação da nova vida de união com e dependência em Cristo. É retrato da vida vivida para Deus— direcionada a Deus, e não mais ao pecado. Inclui o lavar-se, como também o ser revestido de Cristo.
Por outro ângulo, deve-se fazer certa distinção entre o batismo como um ato religioso e a prática de sua utilização no contexto institucional de membresia na pessoa jurídica da igreja local. Parte da problemática enfrentada na questão do batismo visa a preocupação com o aspecto da igreja como pessoa jurídica.
É comum aproveitar o batismo como via de ingresso à membresia de uma igreja local, mesmo com vínculo à decisão de inclusão ou aceitação feita numa assembléia da igreja. Em parte, esta forma de associar ou vincular o aspecto espiritual do batismo com a questão legal de membresia na pessoa jurídica é prejudicial a uma boa compreensão do batismo. Isto porque evita-se batizar um indivíduo até que a igreja possa comprovar a conversão do mesmo, quando na Bíblia é o batismo que serve de profissão pública de fé. De fato, o Novo Testamento utiliza o batismo da mesma forma que a igreja atual utiliza a chamada “oração do pecador”. O batismo era ritual de iniciação do crente12.
O crente deveria ser batizado na pessoa de Jesus13—ou seja, ser imerso em Cristo ou unido por completo a Ele14. Não é tão importante a frase associada, nem a forma em si, mas a realidade do compromisso e da união vital com Cristo que o batismo representa. Aproveitar o evento demonstrativo desta união com Cristo para designar ao mesmo tempo o ingresso na membresia da igreja local gera as suas dificuldades, mesmo que haja boa e sincera motivação nessa prática.
Ao tratar a questão, deve-se salientar que Paulo usa verbos no passado e também no tempo futuro ao retratar o batismo. A questão do espelho e união na morte de Jesus é tratada no tempo passado, enquanto a questão da ressurreição de Cristo é ainda futura86. Poderia-se tratar o símbolo do batismo com o sentido de que ainda estamos sepultados com Cristo na expectativa de nossa ressurreição.
Êxodo 12:
Esta passagem é a passagem básica para ajudar a entender o Pêssach (j s p ) hebraico, que é a celebração contendo o Seder, sobre o qual a ceia do Senhor foi estabelecida. A celebração é comemorativa do êxodo do Egito, o qual expressa de forma simulada a liberdade e nova vida dadas em Cristo. Em conjunto com esta passagem, deve-se tomar consciência de que há outras passagens de ensino complementar, como Êxodo 34.25, Números 9; Deuteronômio 16; Josué 5; 2a Reis 23; 2a Crônicas 30; 35; e Esdras 6, bem como passagens do Novo Testamento que referenciam a festa, incluindo alguma descrição da participação de Jesus com os seus discípulos.
A celebração do Pêssach era uma festa essencial do povo judeu, pois retratava a salvação de YHWH (h w h y ) para o povo na saída do Egito. A festa devia ser celebrada para que o povo não esquecesse daquilo que YHWH havia feito por eles. O evento do Êxodo era o evento central da história de YHWH com o povo. Desenvolvia o mesmo papel que a paixão, morte e ressurreição de Jesus tem para o cristão. O evento original da Páscoa, ou Pêssach (j s p ), foi inaugurado em antecipação da libertação que YHWH estava para lograr. Assim também, Jesus celebrou a festa com os seus discípulos em antecipação de sua morte e a libertação que estava por lograr em benefício deles.
Pêssach:
O Pêssach (j s p ) judaico é uma celebração anual do evento do Êxodo. É a celebração mais importante do calendário judaico desde antes do tempo de Jesus. A parte principal da semana celebrativa é a ceia do Seder. A importância do Pêssach se deve ao fato de que celebra o Êxodo, que marca o início da redenção e formação do povo de Israel como o povo especial de YHWH (h w h y ). O Êxodo era evento central para toda a formulação de fé do povo, e esta é a festa do evento do Êxodo. A celebração do Pêssach é demarcada como tendo o propósito principal de ensinar aos filhos a importância e o sentido do Êxodo. Para tanto, toda a estrutura da celebração do Pêssach foi elaborada para ajudar nesse ensino15.
Na celebração de recordar o Êxodo, o povo se vê sendo pessoalmente remido do Egito. A ação de Deus em prol do bando de escravos era algo único na época. Para o povo era o início de sua existência como um povo. O Êxodo formou também a base para a convocação divina, para que o povo estivesse pronto para aceitar a aliança que YHWH estava prestes a promulgar. Por causa de tudo que YHWH havia feito ao resgatá-los do Egito, o povo estava agora pronto a entregar-se a servir apenas a este mesmo Deus poderoso. Vale lembrar que o povo que saiu do Egito era ainda idólatra e politeísta. Ainda foi-lhes necessário caminhar no deserto para aprender que não havia outro deus no mesmo patamar que YHWH.
O Pêssach é a celebração deste início do caminhar do povo com o seu Deus, YHWH. É uma celebração de que Deus fizera deles não mais um bando de escravos sofrendo nas mãos do Faraó, mas um povo indo à terra que lhe havia sido prometida. “Éramos escravos de Faraó, mas Deus nos tirou do Egito com forte mão e nos introduziu à terra prometida”. Esta frase é o cerne da celebração. O Pêssach é um memorial da salvação e nova vida que Deus operou para o povo ao qual estava chamando.
Na ceia de Jesus com os seus discípulos, era esta a celebração esperada pelos discípulos. Esperavam olhar para trás, lembrando a salvação que Deus havia operado em suas vidas quando foram tirados do Egito. Até os preparativos para a festa visavam a ajudar os participantes a livrarem as suas vidas do orgulho e pecado para estarem prontos a celebrar a libertação da sua escravidão pessoal. Esperavam olhar para trás e aproveitar para si o que Deus havia feito há mais de mil anos.
Ao passar à celebração, porém, Jesus modificou a festa. Ele sim fez os discípulos lembrar da saída do povo do Egito, mas os levou a celebrar a páscoa original, não a memorial. Na noite da fuga do povo da terra do Egito, o povo comeu o primeiro Seder em expectativa do Pêssach. O animal sacrificado foi comido às pressas na esperança de que naquela mesma noite fugiram da terra do Egito pela mão de YHWH. Assim, Jesus tomou dois dos elementos especiais da noite, transformando-os em novos memoriais.
Em lugar de manter para a matsá o significado do pão da aflição e da escravidão, Jesus o transforma em símbolo da nova aliança futura. Jesus entrega a matsá como representando o seu próprio corpo que seria partido como sacrifício da aliança. Ele toma também um ou mais dos cálices (símbolos da alegria da festa), transformando o seu sentido para representar a sua própria vida derramada para selar a nova aliança com Deus.
A festa do Pêssach, portanto, passa a espelhar mais do que a saída do Egito no passado. Mesmo que os judeus já apropriavam o evento do Êxodo para suas vidas em particular e traçavam o vínculo do passado com o seu presente, tal não era o suficiente. Havia uma nova aliança a ser instituída. Esta seria também para aproveitamento pessoal. Seria digno de uma celebração alegre lembrar a redenção do indivíduo por Deus. Havia também a necessidade de haver uma celebração prévia—uma expectativa de libertação. Era necessário um vínculo de fé, esperando que Deus cumpriria com a Sua promessa de dar nova vida para que o homem pudesse pertencer a Seu povo particular.
O Pêssach já espelhava o mesmo sentido básico da salvação alcançada por Jesus. A celebração agora tem mais sentido com o complemento da nova aliança em Jesus. Os Salmos cantados na celebração antiga16 já anunciavam a morte e sacrifício de Jesus a partir da celebração do Seder nessa mesma festa. O único aspecto de participação na nova aliança, no entanto, é o de fé e compromisso de viver a nova vida sob a soberania de Deus.
Os discípulos, portanto, tomaram dos símbolos da antiga aliança alicerçada no Exodo do Egito e os revestiram do novo significado dado por Cristo. Os elementos que lembravam a aflição e a alegria resultante do Êxodo, passaram a lembrar o sofrimento de Cristo para nos trazer nova vida e alegria através de sua auto-entrega, selando para nós o novo pacto de Deus. Não mais lembravam apenas o Êxodo do Egito, mas o ingresso ao novo reino de Jesus, alcançado na cruz. Jesus é o nosso cordeiro, a nossa páscoa. Por meio dEle o destruidor passou por cima das nossas casas e fomos expulsos do nosso Egito a uma nova vida no reino de Deus.
1ª Coríntios 11.17-34:
Para frisar bem o contexto da passagem acima referida, deve-se salientar os pontos a seguir da Epístola como um todo17:
1.30
Eu sou de Cristo”
5.6-13
Chamêtz e Sêder (Nos preparativos para o Seder judáico, procura-se levedura em toda parte da casa no dia anterior à celebração do Pêssach. Esta passagem se relaciona com tal busca para retirar todo fermento da vida.)
6.11-20
membros de Cristo, unidos, comprados: o ser comprado e unido a Deus é temática do Pêssach, pois no evento o povo foi resgatado do Egito, comprados para união com YHWH (hwhy), passando a ser seu povo.
7.23
comprados da servidão: reflete o resgate do Egito
7.1-40
casamento segundo a relação com Deus: como povo peculiar de YHWH (hwhy), Israel era tido como esposa ou noiva
de Deus
8.1-13
comer a ídolos versus comer a Cristo: comer da mesa sacrificial indicava relacionamento cúltico, o Seder tendo
relação com o conceito de festa cúltica de participação da aliança com Deus
10.6-10
não idolatria/prostituição: traça a distinção entre pertencer a Deus ou servir aos deuses egípcios
10.14-22
beber a ídolos/Cristo: participação no celebrar as festas cúlticas, essencialmente o Seder do Pêssach
10.23-33
ídolo nada/eu de Cristo: essencial no Pêssach era a identificação de pertencer a povo resgatado por YHWH
11.17-34
juntos somos noiva de Cristo/não há lugar para chamêtz: pureza no relacionamento matrimonial, como também
espelhado no culto ao Deus zeloso
Nas igrejas evangélicas da atualidade é hábito ou tradição já bem arraigada a prática de ler o texto de
1ª Coríntios 11.23-34 durante a celebração da ceia do Senhor. O contexto imediato da passagem, porém, começa antes com o versículo 17 dentro do contexto mais amplo dos capítulos 10 a 1418. Há certo debate referente à divisão mais apropriada das seções da carta, mas o papel do capítulo onze no mínimo serve de uma ponte entre o capítulo 10 e os capítulos de 12 a 1419. Para compreender bem o texto de 11.23-34, é indispensável lê-lo como um todo no mínimo desde 11.17, assim respeitando o contexto imediato. Uma leitura melhor compreenderia os capítulos de 10 a 14, como sempre, o ideal seria a leitura da carta em sua íntegra.
Em toda a carta, Paulo está respondendo a certas colocações e práticas da igreja em Corinto, dando um aval e orientando a igreja referente aos seus posicionamentos. Este é realmente o propósito geral de Paulo em toda a carta, e este fato deve ser lembrado ao interpretar qualquer passagem dela. A partir do versículo 17, Paulo começa a tratar certo problema referente à celebração de Cristo, especificamente em relação à ceia. O problema tratado tem a ceia como pretexto e situação, mas o assunto não é a ceia em si. O interesse de Paulo é de tratar a questão da unidade da igreja, ou seja a falta de união existente92, um segundo abuso no culto cristão em Corinto20. Vejamos o tratamento e o contexto coríntio.
Nos versículos 18 e 19, Paulo levanta a questão de facções, ou partidos dentro da igreja. Esses crentes estavam exibindo rivalidades, como também já fora levantado mais de uma vez desde o início da carta21. O problema dessas divisões foi uma temática repetida de Paulo, problema básico que aparentemente ocasionou a escrita da carta22. No versículo 20, o assunto das dissensões, rivalidades, ou facções é dirigido à prática de celebrar a ceia. Paulo explicitamente diz neste versículo que o problema é de que estão se reunindo, mas com um propósito esquivado do devido. Enquanto deveriam estar se reunindo para celebrar a ceia de Cristo, o propósito de sua celebração havia sido abandonado. Nos próximos três versículos, esse problema fica ainda mais explícito. Paulo exemplifica o assunto apontando que os Coríntios não exibem nenhum tipo de união e comunhão no comer juntos, como deveria ser uma celebração da Ceia do Senhor.
Para começar, havia uma desigualdade entre os crentes em termos financeiros, e estavam fazendo celebração com distinções sociais dentro da igreja23. Aqueles com mais condições estavam trazendo as suas práticas aprendidas dos romanos à reunião para supostamente celebrar o Seder de Cristo. É interessante notar que Paulo especificamente menciona como problemática a questão de que os coríntios não estavam esperando uns aos outros para que juntos participassem da celebração. Uns tinham pouco para comer, enquanto outros se enchiam de volumes glutônicos de comida, ignorando a necessidade dos seus irmãos e até humilhando-os24.
Entre certos grupos religiosos pagãos havia uma espécie de refeição tida em comum entre ricos e pobres, porém os coríntios não alcançavam os padrões de comunhão desses grupos25. Não esperavam nem que os pobres e escravos chegassem, nem compartilhavam com eles de sua abundância. É bem provável que estavam seguindo os padrões romanos em comer até que fosse necessário volver o estômago para poder comer mais. Isso, enquanto outros passavam fome. Foi retratado em termos de “pobres, famintos encontrando ricos intoxicados, naquilo que deveria ser a ceia do Senhor”26. Em tal contexto, Paulo responde, dizendo que seu reunir não tem nada a ver com celebrar a ceia de Cristo.
O formato da celebração na época teria sido muito mais próximo à forma judaica de celebrar a páscoa, do que as formas atuais que se restringem aos dois elementos mencionados por Paulo neste texto27. O contexto era da celebração de uma ceia — uma refeição completa. Era costume para as igrejas da época celebrar o que alguns chamaram de uma “ceia de amor”. Traziam suas comidas e as compartilhavam entre si numa atmosfera de celebração e união, uma refeição ou banquete, qual era sua forma de celebrar a ceia28. Esta ceia tinha como sua base a celebração judaica do Pêssach, sendo a continuação cristã dessa celebração.
Vale investigar um pouco da forma histórica das celebrações nas vilas romanas da época, para melhor entendermos o que se passava dentro da igreja em Corinto. Constata-se pela arqueologia que uma típica vila romana acomodava de nove a doze pessoas reclinadas à mesa no salão de banquetes29, os outros trinta a quarenta convidados eram relegados a ficarem de pé na antesala. Era comum até servir comidas qualitativamente diferentes para os convidados, de acordo com a sua classe social30. Um governador romano, escrevendo por volta de cinqüenta anos após a época da carta de Paulo, detalha a “hospitalidade” de um homem de seu conhecimento:
Os melhores pratos eram colocados em frente de si e de uns poucos selecionados, e as migalhas baratas perante o resto dos convidados. Ele havia até colocado o vinho em pequenos odres, dividido em três categorias, não com a idéia de dar oportunidade aos convidados para escolherem, mas para fazer impossível para que rejeitassem o que lhes era oferecido. Uma categoria estava intencionado para si e para nós, outra para os seus amigos secundários (todos os seus amigos eram classificados), e a terceira para os seus e os nossos servos livres31.
Aparentemente, era esse o padrão de “hospitalidade” e “comunidade” que os coríntios estavam celebrando, observando as distinções sociais entre si. O problema especial dos coríntios era de que parte deles estavam celebrando glutonaria e desigualdade e não Cristo. Estes se davam de importantes e privilegiados, enquanto outros na mesma celebração padeciam necessidades e fome. Nessa celebração, que era uma refeição completa, os coríntios estavam neglicenciando a razão de estarem reunidos, o “partilhar de um só pão”. Não se lembravam de sua união essencial e de sua dependência de Cristo32. Sua celebração dividia o corpo de Cristo, conforme as suas distinções de classe106.
É neste contexto que Paulo apresenta o ensino dos versículos 23 a 34*. Seu enfoque nestes versículos centraliza a questão do corpo e da vida (sangue) de Cristo derramada em nossa salvação. No versículo 26, ele resume a essência do propósito da ceia nos mesmos termos que usa para responder e criticar a atuação dos coríntios. A ceia é um anúncio da morte de Cristo. É também muito mais do que isto quando se considera todo o seu contexto nos moldes do Pêssach que Jesus teria celebrado com os seus discípulos, sendo uma refeição completa da qual o uso do pão e do vinho são apenas ingredientes de uma ampla celebração33. As colocações de Paulo aqui se limitam a responder a situação problemática dos crentes em Corinto.
No contexto das suas práticas, eles estavam condenando-se a si mesmos ao participar indignamente daquilo que denominavam ser a “ceia do Senhor”. Em lugar de estarem celebrando e afirmando a união em Cristo, a prática dos coríntios estava rompendo a comunhão ao esquecerem-se de mostrar amor cada um ao próximo108. No versículo 27, tropeçamos um pouco sobre o termo traduzido por “indignamente”, que tem a noção específica de “não de acordo com o seu valor”34. Este termo é um advérbio, o qual pode apenas qualificar a forma ou atitude da participação, nunca sendo uma descrição da pessoa que participa35. O termo não se refere às condições morais da pessoa, mas à sua prontidão para respeitar a ocasião e o propósito da celebração—“fazei isto … em memória de mim”. Aquele que participar desta ceia sem respeitar a ocasião está condenando-se a si mesmo, pois ao participar ele está anunciando a morte de Jesus e ao desrespeitar a ocasião desrespeita ao próprio Cristo que anuncia. O modo da participação é importante, porém, ninguém poderia considerar-se digno de participar. O mais indigno que celebra em humildade cumpre o mandamento de Paulo.
Paulo segue este ensino com a continuação do tema nos versículos seguintes. Ele incentiva o indivíduo a examinar o seu motivo de estar presente para assim participar da ceia de uma forma digna. “Examine-se pois e coma”36. Esta frase lembra a celebração do Pêssach, ou melhor os preparativos para a celebração que começava com a busca interior do chamêts, ou levedura. Tal busca tinha função de ajudar o participante a eliminar o orgulho e portanto o pecado de sua vida. Esse esforço deveria aprontá-lo para participar da festa da libertação do pecado. A busca do chamêts era feita por todos em preparativo para comer do Pêssach37.
Paulo quer que todos participem da ceia, mas que participem da ceia, e não de um show de extravagância glutônica romana. Paulo quer que a igreja como um corpo celebre a Cristo e à liberdade e nova vida que Cristo nos trouxe. Esta vida não faz distinção de classes sociais e privilégios pessoais.
Um indivíduo come de forma indigna quando não atua em amor pela comunhão da igreja, também quando não percebe a presença de Cristo, é ingrato pela sua morte sacrifical e impassível ante o sentido de sua redenção…. Examinar-se à luz do sentido da fé cristã e do amor cristão fará impossível o tipo de ação do qual os coríntios eram culpados113.
Não há, portanto, razão para a preocupação de muitos quanto a cair despercebidamente em condenação.
Ao mencionar a necessidade do indivíduo examinar-se, Paulo salienta a ignorância do sentido dos preparativos para a celebração do Pêssach e a busca do chamêts. O orgulho do status social de alguns estava distorcendo todo o sentido da festa e a celebração de Cristo.
Olhando de volta para o versículo 29, aquele discernir o corpo refere-se não somente ao corpo físico de Jesus na cruz, mas o corpo atual de Cristo—a sua igreja reunida, com o sentido da frase que Paulo já havia usado em 10.16-1738. Os cristãos estão sendo convocados a examinar a sua forma de participar da ceia, para que tal ceia realmente celebre a Cristo, não às distinções sociais entre os participantes. Os que não celebram de forma digna estão celebrando ofensa direta a Cristo. Não estão execrando nem profanando os elementos do pão e do vinho. A ofensa é uma ofensa direta a Cristo e a sua mensagem clara de igualdade e da supremacia do servir ao próximo39.
Assim, nos versículos 33 a 34 Paulo refere-se novamente à razão da igreja reunir-se. Ela deve reunir-se para estar em união, não para chamar atenção cada um para si mesmo. No intervalo de 31 e 32, Paulo lembra aos coríntios que eles mesmos deveriam pensar antes de fazer as coisas, para assim não fazer algo condenável. Paulo os lembra de que eles mesmos deveriam julgar os seus motivos ao reunirem-se, a fim de que pudessem desfrutar plenamente da celebração de Cristo e não passar a necessidade de sofrerem correção.
Olhando para todo este contexto, pode-se facilmente ver que o propósito de Paulo não era para excluir qualquer pessoa da celebração da ceia. O seu propósito era de lembrar aos crentes a razão de sua celebração—Cristo. Em Cristo a igreja deveria desfrutar de união e não de facções. A razão de levantar a questão da ceia era para chamar a igreja à união, não para ensinar a respeito da ceia. Em vez de atuar em união como o corpo de Cristo, celebrando a ceia do Senhor, estavam divididos e essa dissensão estava danificando a todos4041. A questão da ceia aqui tratada é certamente acidental ao propósito de Paulo. A intenção maior de Paulo é de tratar a necessidade de união na igreja. A ceia era apenas mais um exemplo citado para tratar da questão das facções ou divisões que haviam surgido.
Os capítulos seguintes da primeira carta de Paulo aos Coríntios não falam da celebração da ceia, mas continuam a mesma intenção de Paulo—tratar a necessidade de união. É um só espírito que dá dons aos crentes, um só Senhor, um só Deus, uma só fé, um só amor e um só corpo — o corpo de Cristo, que é a igreja! Há que discernir este corpo, pois como poderemos celebrar a Cristo de outra forma, senão na união dos membros do seu corpo? “Assim, pois, toma do pão e beba do cálice” anunciando que a morte de Jesus nos fez um só corpo e que em nós Jesus está presente. Sim, Jesus morreu por nós na cruz, mas ressucitou, vive em nós e está por vir!
Disciplina da Igreja:
O assunto de disciplina eclesiástica deveria ser visto com muito cuidado, respeitando firmemente a exposição do ensino bíblico. É comum demais fazer muita ênfase em punir membros da igreja local em seguimento a tradições católicas de penitência e excomunhão. Essas práticas não tem muito apoio bíblico, pois o peso do ensino bíblico recai sobre a graça de reconciliação e o perdão incompreensível de Deus. Temáticas bíblicas de graça, reconciliação, perdão e amor divino devem encontrar reflexo na temática da disciplina eclesiástica. É salutar um lembrete de que há muito menos testemunho bíblico na questão da disciplina do que nestas outras questões. O peso deve coincidir com o peso do conteúdo e da clareza do ensino bíblico. Outros textos tratam de aplacar a veemência da disciplina117. Em geral, a ênfase é de reconciliação e restauração do indivíduo. Bem se podia mencionar as múltiplas ocasiões nas quais Paulo oferece críticas severas às igrejas, sendo as suas palavras a extensão completa da disciplina. Esta é a sua tática geral—adverter o indivíduo ou grupo que está em erro—nada mais.
Mateus 18:
Nesta passagem, encontra-se o ensino bíblico mais claro e específico em termos gerais com respeito à disciplina na igreja. Vale salientar que o tema central da passagem de 18.10-35 não é disciplina, mas reconciliação e o oferecer perdão imerecido.
No início do capítulo, Jesus trata da necessidade de fazer pouco da importância própria, colocando a vida em dependência para com Deus42. Neste contexto, Jesus começa ensinando sobre a seriedade do pecado, já que teve que responder às preocupações dos discípulos em defender as suas posições de importância no reino. Respondida a preocupação de grandeza no reino, Jesus relaciona esta preocupação e contesta todo o esforço dos judeus para manter o corpo inteiriço, mesmo depois da morte, para poder entrar no reino apocalíptico (no seu conceito de ressurreição) com o corpo inteiro. A resposta crítica de Jesus é de que estão se preocupando com o aspecto errado, até mesmo insignificante. A preocupação de ter o corpo intacto estava gerando neglicência no necessário para o mero ingresso no reino. Jesus coloca, portanto, que os judeus, como também os seus discípulos, estavam enfatizando detalhes insignificantes, servindo assim de tropeço para os demais. Neste contexto, Jesus salienta a seriedade do tropeço e de levar o outro a tropeçar.
Para seguir no ensino da importância do indivíduo aparentemente insignificante (paralítico, coxo ou deformado), Jesus refere a parábola da ovelha perdida. O indivíduo insignificante deve ser procurado e restaurado ao rebanho. Voltando à questão colocada antes, o insignificante ou até desprezível perante a sociedade é de grande importância para Deus, podendo até ser visto na resposta de indicar “Quem é o maior no reinar de Deus?” em termos do indivíduo que carece de atenção para ser resturado ao rebanho.
Jesus segue o ensino, definindo a necessidade do indivíduo tratar de restaurar a comunhão com o próximo. Se o irmão errar contra o discípulo, o discípulo deve procurá-lo para restaurar o relacionamento quebrado43. Deve tratar primeiramente apenas com o ofensor. Só quando não conseguir a reaproximação deveria seguir com testemunhas para ajudarem na reconciliação. Quando esta intervenção não surtir efeito, então pode-se levar o caso para a assembléia, para um posicionamento público. Somente depois de esgotar todos os recursos para reconciliar o errante é que aceita-se sera inútil prosseguir no esforço de reconciliação. Com esta tarefa reconciliadora, Jesus coloca a sua própria presença e mediação entre os irmãos, mostrando a importância que ele a dá. “Onde estão dois ou três reconciliados em meu nome, ali estou em seu meio”.44
Um pouco inconformado com a necessidade de procurar tanto a reconciliação, mas indo além do ensino vigente na temática, Pedro levanta a questão de saber o número de vezes que deveria perdoar o irmão pela mesma ofensa. Quando cita o número sete, ele excede o ensino dos fariseus de seu dia, que diziam que perdoar a mesma ofensa três vezes era o suficiente. A resposta de Jesus é, no entanto, ainda mais significativa, já que contraria não apenas a definição da norma farisaica, mas a própria questão de haver um limite.
Alguns ainda questionam, “deve-se perdoar quando o ofensor não se houver arrependido?”. Pode alguém estar arrependido e cometer contra o mesmo indivíduo o mesmo erro setenta e sete vezes? De forma alguma mede Jesus aqui o arrependimento do ofensor, mas sim a responsabilidade do discípulo em reconciliar o irmão perdido, errante.
Para explicar de forma mais ilustrativa, Jesus conta a parábola sobre o escravo que queria ser perdoado, porém sem perdoar. Vale observar que a dívida desse servo é muitíssimo maior do que lhe era devido em retorno, e muito mais do que jamais conseguiria pagar. O talento tinha valor superior a quinze anos do rendimento do serviço de obreiro. Este recebia um denário (um denário: um por dia). Como o escravo devia mais de dez mil talentos45, seria o equivalente a mais do que um milhão e oitocentos salários mínimos (mais do que R$275 milhões no primeiro semestre de 2001). Qualquer que seja o “cálculo exato”, é uma quantia de dívida que nem acertando na loteria acumulada poderia qualquer escravo saldar. São estas as condições do perdão divino recebido pelo discípulo—um perdão completamente imerecido e além de qualquer esforço para saldar. Jesus ensina que é com o mesmo proceder que o discípulo deve também perdoar o irmão errante.
É dentro desse contexto que Jesus enquadra o ensino referente à “disciplina” e ao perdão. A ênfase de Jesus é na necessidade de reconciliar o irmão, mesmo abusando de recursos para conseguir a reconciliação. Uma pergunta tem sido sugerida: “Deve-se perdoar mesmo se…?” Pelo texto de Mateus 18, deve-se perdoar sem motivo qualquer. Perdoa-se por questão de graça—a graça de Deus. Se as palavras de Jesus no versículo 22 devem ser compreendidas como quatrocentos e noventa vezes ou se devem ser lidas como “somente” setenta e sete vezes, que tipo de perdão condicional abriria brecha para tanta repetição do mesmo erro contra o mesmo indivíduo? Aparentemente aqui basta a intenção de regularizar o relacionamento, mesmo que haja muita fraqueza no desenvolver a boa intenção.
Quando Jesus expressa suas colocações referentes à reconciliação, deve-se lembrar que esta questão tem a ver com desavenças entre irmãos, não em termos de afrontas a Deus. Nesses casos, em termos de disciplina eclesiástica deve-se ler em conjunto com este texto a passagem de 1a Coríntios 5.1-5, tendo sempre em mente o imperativo de buscar a reconciliação e a qualidade do perdão que Deus estende.
Ao mesmo tempo, deve-se manter em tensão a seriedade do pecado e o aspecto imerecido do perdão. Práticas comuns de disciplina eclesiástica tendem a concentrar-se no tratamento de uma lista específica de pecados públicos, ignorando pecados mais privativos. A regra desta passagem é de buscar a reconciliação entre irmãos, não de punir pecados. Ao faltar arrependimento, deve-se investigar o motivo disciplinar, tanto como os meios aplicados para ajudar o errante a desejar a reconciliação.
1a Coríntios 5.1-5 e 2a Tessalonisenses 3.14-15:
Nesta primeira passagem, Paulo trata com muita seriedade uma questão de imoralidade que parte de uma má compreensão da liberdade em Cristo. Havia o conceito judaico de que a conversão e a nova vida em Cristo anulava as relações sociais prévias. Em decorrência deste conceito, parece que alguns em Corinto estavam considerando que as regras de incesto e matrimônio fossem anuladas46. Assim, alguns aparentemente pensavam ter completa liberdade de ignorar normas sociais e mesmo legais que definiam o que era próprio.
Lembrando o sentido do termo hebraico “Satán” (@fc), seria cogitável que Paulo até estivesse referenciando o adversário (o equivalente a “promotor de justiça”) do governo da época, já que o irmão em questão estava infringindo as leis de procedimento legal da sociedade. De qualquer forma, a tônica do qualificativo é de mostrar a distorção completa do proceder cristão, buscando a resolução da ofensa de forma imediata.
Em conjunto com esta passagem tão difícil de interpretar em termos de procedimentos detalhados, deve-se ler também 2a Tessalonisenses 3.14-15. Nesta segunda passagem, certos assuntos são melhor clarificados. Aqui Paulo faz uma semelhante admoestação, mas especifica certos limites na aplicação do ensino. Estes limites estão mais de acordo com o ensino de Mateus 18, onde o tema central é a reconciliação.
                    Apêndice—Hagadah para o Seder do Pêssach:
Pêssach: Celebração da Páscoa Judaica

Que Jesus e seus discípulos celebraram o Pêssach pode ser afirmado com segurança, mesmo se a celebração fosse no dia anterior à data correta e divergia um tanto das normas celebrativas da época, como indica o texto do Evangelho de João. Exatamente como foi a celebração deles é impossível reconstituir. A meta desta obra, porém, é de aproximar o participante o máximo possível à prática judaica da qual Jesus e os seus discípulos participaram e transformaram naquilo que chamaram a Ceia do Senhor. Muitos aspectos da celebração judaica atual foram acrescentados após a destruição do Templo no ano 70, mas em tese, o teor básico da celebração pode ser reconstituído.
Aqui encontra-se a nossa elaboração do Seder do Pêssach judaico, com vistas a resgatar a celebração de Jesus. Começamos com os quinze passos da celebração judaica atual, procurando eliminar acréscimos devidos ao desenvolvimento da celebração através da sua história. Certas modificações da festa judaica atual desta celebração do Êxodo são devidas à destruição do templo no ano 70. Algumas partes da celebração atual foram incluídas aqui, mesmo que a época de seu ingresso seja um tanto duvidosa em relação à forma de Jesus ter celebrado. Foram incluídas por causa de seu significado para o cristão que encontra nesta celebração uma proclamação do evangelho de Jesus Cristo, o nosso Cordeiro Pascal. Estes serão anotados como originários de época posterior.
A busca do Chamêts provavelmente tem alguma origem já da época do segundo templo, porém deve ter sofrido certas modificações até chegar na forma da celebração judaica atual. O afikommen é aparentemente um acréscimo à celebração da época de Jesus, como também o Karpás, que tomou o lugar do uso do hissopo que era mergulhado no sangue do cordeiro para se untar os marcos das portas da casa.
O que segue, portanto, é uma aproximação do que Jesus teria celebrado com os seus discípulos. Não podemos averiguar com precisão todo detalhe, mas podemos chegar perto o suficiente para melhor compreender o sentido que Jesus deu à ceia em termos do seu próprio ministério e sacrifício, vinculado à celebração do evento do Êxodo, tão central para os judeus.
Para maiores informações, entre em contato com:
Christopher ou Karina Harbin
Rua Professor Fernando Carneiro, 203
Bairro Três Figueiras
91.330-100 Porto Alegre, RS 0-XX-51-3328-6250 ou 0-XX-51-9947-0520 harbin@teamgaucho.org

Preparativos Para o Seder do Pêssach:
A Busca e Queima do Chamêts47:
Hoje em dia, na noite anterior à noite do Sêder na casa judaica, a dona da casa apresenta a casa limpa de todo tipo de alimento e bebida fermentados. Nesta noite, o dono da casa realiza uma inspeção à luz de vela em conjunto com o resto da família, para constatar com firmeza que a casa está totalmente limpa de Chamêts, confome diz a Torá: “…levedura não será encontrada em vossas casas… nenhuma coisa levedada comereis…”.
OBS – Costuma-se esconder alguns pedacinhos de pão (normalmente dez) pela casa para que o dono da casa encontre-os durante a busca e, assim, sua bênção não tenha sido pronunciada em vão.
Proclamação: O nosso ___________ (quintal, pátio, salão de festas, etc.) está limpo e preparado para a nossa celebração do Pêssach. É hora de inspecioná-lo e verificar se tudo realmente está em ordem para que possamos prosseguir com a festividade.
Durante a procura do chamêts, nada deve ser dito a não ser o que se refere à busca do chamêts.
Bênção: “Bendito és Tu, Senhor, Nosso Deus, Rei do Universo, que nos santificaste com os Teus mandamentos e nos ordenaste a eliminar todo chamêts.”
[Procura-se o chamêts.]
Agora vamos incinerar o chamêts encontrado, anulando todo o chamêts remanescente, esteja onde estiver, com a proclamação a seguir:
Proclamação: “Que todo chamêts existente em minha posse, visto e não visto, eliminado e não eliminado, seja anulado e considerado como o pó da terra”48.
[Queima-se o chamêts encontrado durante a busca.]
A idéia de eliminar o chamêts é para “delimitar a matsá como algo especial… [e] para enfatizar a importância da matsá e do seu simbolismo. Ademais, nós nos abstemos de comer chamêts como parte do processo de libertação pessoal. Em interpretação rabínica, o chamêts é visto como simbólico da inclinação maligna. A remoção de todo chamêts é uma metáfora para um processo interior de purgação e libertação de nós mesmos da impureza—o chamêts que encontra-se dentro de nós. É por isto que procuramos tanto remover mesmo a peça mais insignificante de chamêts material; é para significar a dificuldade e o esforço para remover estes aspectos negativos de nós mesmos”49.
A celebração do Pêssach deve começar com essa busca interior para eliminar o chamêts em nossas vidas. Somente quando reconhecemos a nossa escravidão ao pecado e a nossa tendência de confiar em nós mesmos, em lugar de confiar em Deus, podemos começar a nossa celebração do Pêssach.
Celebração do Pêssach:
OBS – “A preparação para o Pêssach deve envolver o grupo inteiro ou família, se possível. Crianças podem ajudar a pôr a mesa, colorir cartões com os nomes, fazer cobridores de matsá de guardanapos, e tomar conta da água salgada. Quanto mais as pessoas participam, maior o seu senso de envolvimento”50.
A luz é símbolo da alegria de nossa celebração, e o momento de acender as velas é também tempo de oração pessoal de ações de graças e petição51.
[Acende-se as Velas. Espera-se alguns minutos para oracão silenciosa.]
Bênção: [Ergue-se o cálice na mão dominante.] “Digno és tu, Senhor nosso Deus, Rei do Universo, que nos tens santificado através de tua Palavra. Em tua honra acendemos as velas desta festa”52[Amém.]
1. Cadêsh: Santificação do Dia
OBS – O cálice de Kiddush e os cálices individuais são preenchidos, preferencialmente que se sirvam um ao outro como sinal de liberdade53.
No Egito, os hebreus foram forçados a construir. Foi laboroso, pois construiam uma cidade no pântano, e cada nível afundava no solo, tendo eles que construir outro em cima. A escravidão é uma vida sem propósito nem realização.
Mas, nesta noite, santificamos a recordação e a celebração da libertação dada por Deus a seu povo. [Ergue-se o cálice]
O vinho é símbolo da redenção, como diz Salmo 116.13, “O copo da salvação levantarei, e invocarei o Nome do Senhor.”
Nesta celebração existem quatro cálices principais. “Os quatro cálices estão ligados às quatro expressões da redenção de Êxodo 6.6-7. ‘Eu sou YHWH. Eu vos libertarei das cargas dos egípcios, e vos resgatarei da sua escravidão. Eu vos redimirei com mão estendida… e vos levarei a ser o Meu povo…’”54.
Louvemos o nome do Senhor e proclamemos a sua grandeza a todas as gerações, pois tem libertado o seu povo da opressão.
Bênção: [Ergue-se o cálice.] “Bendito sejas Tu, Senhor, nosso Deus, Rei do Universo, Criador do fruto da vinha…. Bendito sejas Tu, Senhor, nosso Deus, Rei do Universo, que nos escolheste e nos distingüiste, santificando-nos pelos Teus mandamentos…. Bendito sejas Tu, Senhor, nosso Deus, Rei do Universo, por dar-nos vida, sustentar-nos, e prontificar-nos a celebrar esta festa”55. [Toma-se o cálice.]
3. Carpás: Verdura - Salsa em água salgada
OBS – Esta parte do Pêssach veio a ser incluída muito depois da época de Jesus56, mas foi incluída aqui pelo seu valor simbólico em sustituição de usar o hissopo para untar a entrada da casa com o sangue do cordeiro sacrificado.
[Mergulha-se a salsa na água salgada.] Nós mergulhamos a salsa em água salgada, que representa as lágrimas do povo escravizado.
Comemos salsa, simbolizando o hissopo133 que era mergulhado no sangue do cordeiro pascal e roseado nos umbrais das portas das casas dos hebreus134.
Bênção: “Bendito sejas Tu, Senhor, nosso Deus, Rei do Universo, que nos tens dado libertação através do sangue do cordeiro. Ajuda-nos sempre a Te agradecer em qualquer circunstância, assim como o Seu Filho, o nosso Cordeiro Pascal, Te agradeceu na espectativa da cruz.”
[Come-se a salsa mergulhada na água salgada.]
4. Yáchatz: Quebrar a Matsá
O matza é o pão da escravidão, de amargura, de correria, de humildade. Também é símbolo de nossa participação no evento do Êxodo.
Os três matzot, empilhados podem simbolizar os cativos, os libertos que não dão importância à sua libertação, e os libertos que prezam a sua libertação. Os indiferentes estão por debaixo, os não libertos no meio, os libertos em cima. Quando quebramos a matsá do meio, podemos esperar pelo rompimento das cadeias dos cativos. O resgate da metade da matsá quebrada, o afikomen, pode simbolizar a redenção futura dos cativos através dos libertos, acima na pilha, não-atados e possibilitados de agir57.
Yáchatz, o nome desta parte do Seder, significa quebrar ou dividir. Vamos quebrar a matsá do meio em partes desiguais. A parte menor se retorna à pilha de matzot como símbolo do “pão de aflição”. A parte maior, o afikommen, ou “sobremesa”58, será envolta num pano branco para ser escondido e encontrado depois, no final da celebração59.
Proclamação: [Ergue-se as três matsot.] Este é o pão da aflição que os nossos antepassados comeram na terra de Mitzraim.
Proclamação: [Abre-se a porta.] Nossa porta está aberta. Todos os que tiverem fome, que entrem e comam; todos que padecem necessidade, que venham compartilhar pêssach60.
Tomamos deste pão, quebramos este pão [Quebra-se a matsá do meio], e agora antecipamos ser libertos da aflição.
[Coloca-se a parte menor de novo no meio das matzot. Envolve-se a parte maior num pano branco para esconder pela busca de afikommen.]
5. Maguíd: Narrativa do Êxodo
OBS – Serve-se o segundo cálice, preferencialmente que os participantes se sirvam um ao outro como sinal de liberdade.
As Quatro Perguntas:
Pêssach é uma celebração muito especial. Fazemos muitas coisas diferentes durante Pêssach. Que diferente é esta noite de todas as outras noites!
  • Em todas as outras noites comemos chamêts ou matsá, mas nesta noite comemos apenas matsá.
  • Em todas as outras noites comemos de todo tipo de verdura, mas nesta noite devemos comer verduras amargas.
  • Em todas as outras noites não mergulhamos os alimentos, mas nesta noite mergulhamos duas vezes a comida: a salsa na água salgada e a matsá no charrosset61.
  • Em todas as outras noites comemos carne que foi assada, guisada ou cozida, mas nesta noite comemos apenas carne assada62.
“Porque é esta noite diferente de todas as outras noites?
Mais do que tudo, porque nos provoca a perguntar” 63.
As perguntas são centrais para a experiência do pêssach, como para todo o conceito religioso judáico. É no processo de perguntar e refletir que nova compreensão emerge. Este ponto é supremamente importante. O ritual judáico do Sêder deve ensinar. Em lugar de cumprir o ritual por seus próprios méritos, concentra-se em compreender o sentido do ato ritual, a verdade que representa. É por isso que a pergunta é tão importante, pois sem a pergunta, reduziríamos a conduta a uma religiosidade prescrita, ausente de substância significativa e fé142, sendo escravizados a uma religiosidade estéril.
Mas por que fazemos coisas tão diferentes nesta noite em especial?
As Quatro Crianças :
Em quatro ocasiões distintas, a Torá instrui os pais a ensinarem aos seus filhos a narrativa do pêssach. Os sábios inferiram, portanto que haviam quatro tipos de crianças64.
Crianças sábias perguntam: “O que significam as responsabilidades, as leis e os regulamentos que Deus tem mandado?” Tais crianças devem ser ensinadas sobre tudo, pois suas mentes estão abertas para aprender e apreciar a nossa herança.
Crianças más perguntam: “Para que você faz essas coisas? O que significa para ti este culto?” Para ti, e não para nós. Tais crianças se desligam da comunidade de Israel, e nós respondemos: “Eu faço isto por causa daquilo que Deus fez por mim quando eu saí do Egito”. Por mim, e não por elas, pois se houvessem estado no Egito, não teriam saído conosco.
Crianças símples perguntam: “O que isto significa?” A elas dizemos: “Com poderosa mão, Deus nos tirou do Egito, da casa de escravidão”.
Às crianças que não sabem perguntar, começamos explicando que a Torá manda: “Dirás a teu filho naquele dia…”.
E assim, começa agora a nossa narrativa:
Narrativa:
Éramos escravos do Faraó no Egito, mas o Senhor, nosso Deus nos trouxe para fora com potente mão e com braço estendido. E se o Santo, bendito seja, não nos houvesse tirado do Egito, logo nós e os nossos filhos e os filhos dos nossos filhos estaríamos ainda escravizados a Faraó no Egito144.
A quase 4000 anos, havia fome na terra de Israel. Nosso ancestral Jacó levou a sua família e assentou-se no Egito, onde havia muita comida. Os filhos de Israel viviam bem no Egito e chegamos a ser uma grande nação.
Logo, surgiu um novo Faraó no Egito que temeu o nosso povo por haver tantos de nós. “Se houver uma guerra, eles se ajuntarão aos nossos inimigos e lutarão contra nós”. Então Faraó nos forçou a sermos os seus escravos. Ordenou que fizéssemos tijolos e edifícios para ele. Capitães foram postos sobre nós e impuseram serviço árduo, e construimos as cidades de Pitom e Ramasés.
Clamamos a Deus por socorro, e Deus nos ouviu, viu o nosso sofrimento e deu resposta à nossa opressão. Deus lembrou-se do seu pacto com os nossos antepassados Abraão, Isaque e Jacó.
Faraó recusou-se a libertar-nos, então Deus enviou dez pragas sobre a terra do Egito.
Pragas:
Ao recordar cada uma das dez pragas, retiramos uma gota de vinho—nosso símbolo de regozijo—dos nossos cálices, pois a nossa alegria é diminuída ao lembrarmos do sofrimento dos egípcios. Não se lambe o dedo pois isso seria gloriar-se do sofrimento dos inimigos.
Juntos recordemos as dez pragas sobre o Egito65: sangue, rãs, piolhos, moscas, peste nos animais, úlceras, granizo, gafanhotos, escuridão e a morte dos primogênitos dos egípcios.
Quando o próprio filho do Faraó morreu, ele finalmente resolveu nos libertar66.
Narrativa:
Quando o Faraó resolveu nos libertar, saímos com pressa. Deixamos o Egito à meia-noite com tanta pressa que não houve tempo para a massa do pão crescer. Nós o assamos imediatamente e saiu do forno duro e fino—a primeira matsá.
Escapamos para o mar de varas com os egípcios em perseguição. Ali clamamos ao Senhor, nosso Deus, e Ele nos ouviu67. Ordenou a Moisés que levantasse a sua vara sobre as águas e que marchássemos. As águas se abriram e atravessamos o mar em terra seca. Chegando para o outro lado, vimos os egípcios perseguindo, porém as águas voltaram a se fecharem e engoliram o exército egípcio.
Cantamos então uma canção de vitória.
Cante: “Cantai, pois, a vitória é ganha!”
// Cantai, pois, a vitória é ganha, o inimigo afundou-se no mar!
Cantai, pois, a vitória é ganha, as coisas velhas ficaram pra trás!
Vencidas as barreiras que nos impediam, entremos na terra de Canaã!
Alelu, aleluia, aleluia!
Alelu, aleluia, aleluia! // Proclamação: Parem de cantar assim!68 Por quê?
Proclamação: Ouça, para entender por que!
Midrash:
Conta-se num Midrash69 que quando os egípcios estavam se afogando os anjos quiseram juntar-se ao canto de vitória, mas Deus os repreendeu, dizendo, “Minhas criaturas estão se afogando no mar e vocês querem cantar?”
A nossa alegria não pode ser completa quando contemplamos o sofrimento, mesmo dos nossos próprios inimigos70.
Narrativa:
“Em cada geração, cada indivíduo deve sentir-se pessoalmente redimido do Egito, como está escrito: ‘Dirás aos teus filhos naquele dia, dizendo, “É por causa daquilo que o Senhor fez por mim quando eu fui livre para fora do Egito”’. O Senhor, louvado seja, não apenas libertou aos nossos antepassados. Ele nos redimiu com eles, como está escrito: “Ele nos trouxe para fora, para que nos trouxesse para a terra que prometeu aos nossos antepassados”71.
“Éramos escravos do Faraó…”
“A experiência egípcia é a nossa própria, e portanto a história deve ser recontada e expandida, pois estamos ainda lutando para sermos livres. Cada ano tentamos expandir as fronteiras da nossa libertação um pouco mais, pois entendemos que se simplesmente recitarmos a história como um relato acerca de outros, facilmente escorregaremos numa escravidão dos faraós de nossa própria criação152.
1Há uma continuidade entre os termos “pastores” e “mestres”, diferente da continuidade dos elementos anteriores da lista, já que a forma de conjunção no grego é diferente e já não se utiliza do artigo definido com professores, mesmo que vinha usando para cada ítem da lista:
tou;" de; poimevna" kai; didaskavlou".
2Efésios 4.11-16, tradução do autor, conforme Nestle-Aland 27a edição do texto grego.
3Romanos 1.22-25.
4BERKHO F, 563, 569-570.
5BARTH, 229.
6BRUCE, 128.
7No contexto da celebração do Pêssach, a ceia era para a família inteira, não para alguns membros ou os que já eram “filhos da aliança”. A festa do Pêssach era especificamente para ensinar as crianças sobre os eventos do Êxodo e como apropriar os mesmos para si. Tinha, portanto, um papel de ensino e “evangelismo” por assim dizer. Nestes termos não haveria nenhuma questão de impedir a participação de qualquer indivíduo que estivesse presente. A família toda tinha o dever de participar, até convidando outros a participarem com eles. 78 BAUER, 131.
8BERKHO F, 581-583.
9BRUCE, 130 “tem sido incorporados nele” conforme Gálatas 3.27 e 1a Coríntios 12.13.
10Romanos 6.1-11. Tentei aqui se mais fiel ao grego do que a uma leitura acessível no português.
11Algo do mesmo estava incluído entre os convertidos a certas religiões místicas do mundo greco-romano. Mesmo que não se tenha certeza de que esta prática cristã tinha qualquer vínculo com essas práticas pagãs, nota-se uma certa semelhança no sentido e na comunicação que se fazia na prática do evento.
12ELWELL, v1, 148; HALLEY, 499.
13BERKHO F, 577. Esta interpretação de Berkhof coincide bem com o tratamento de Paulo em Romanos 6, com a idéia de ser imerso na pessoa de Jesus em sentido de participação na Sua vida, morte e ressurreição.
14Mateus 28.19 reflete o fato do crente ser batizado na pessoa trina de D eus, porém a prática neotestamentária é de batizar em nome de Jesus, indicando que a declaração trina em Mateus 28 pode bem ser um acréscimo ao texto original (MO O D Y, 119). 86 ACHTMEIER, 104-105.
15Veja o apêndice, Hagadah para o Seder do Pêssach, na página 35.
16Salmos 113-118 e 136.
17Veja também as passagens de O séias 4.12-13; 9.1; Efésios 5.1-21, 28-33.
18D eve-se notar que a figura do Seder permeia a epístola toda na temática da união, pois é de certa forma o exemplo supremo na igreja em Corinto de sua falta de união e discernimento espiritual.
19MAYS, 1182-1183. Há discussão de encontrar-se entre o texto de 1a e 2a Coríntios partes de três epístolas de Paulo aos coríntios. Sabe-se pela menção no próprio texto da carta que Paulo escreveu mais de duas cartas à igreja, porém não há certeza se temos pelo menos parte da terceira carta incluída no texto de 1a Coríntios ou não. D e qualquer forma, os capítulos 10-14 funcionam para indicar a necessidade de ordem e união. 92 Ibid., 1184.
20FEE, 531.
21Veja 1ª Coríntios 1.10-13.
22HAYS, 193.
23MAYS, 1183.
24FEE, 532.
25MO RRIS, 127.
26RO BERTSO N, 163-164.
27ALLEN, 357.
28BITTENCOURT, 69. O termo “ceia de amor” reflete algo da ignorância entre os cristãos referente à celebração do Pêssach judaico que Jesus aproveitou e modificou na celebração da sua ceia com os seus discípulos. O Novo Testamento não divulga os detalhes da festa e em geral os cristãos perderam a compreensão devida da festa em decorrência da igreja divulgar-se entre povos gentíos e perder a sua identificação com suas origens judaicas.
29FEE, 533 nota de rodapé.
30FEE, 533-534 e HAYS, 196.
31PLÍNIO O JO VEM, Cartas 2.6, citado em HAYS, 196.
32MAYS, 1183-1184. 106 FEE, 534.
33HAYS, 193. Veja também material sobre o Pesach Judaico (celebração da páscoa). 108 BRO WN em ALLEN, 356.
34RIENECKER, 316.
35BERQUIST, 88.
36Há neste versículo um paralelo com a procura do chamêts anterior à celebração do Pêssach. Na procura pelo chamêts, o indivíduo faz uma busca interior para livrar-se do seu orgulho ou inclinação maligna (pecado). É neste examinar-se que a celebração do Pêssach tem o seu início. O tema do chamêts já foi levantado em 1a Coríntios 5.6-13.
37Veja apostila em anexo sobre o Pêssach. 113 BRO WN em ALLEN, 359.
38HAYS, 200.
39Marcos 9-10.
40HAYS, 195 e 204.
41a Coríntios 2.5-11; logo 2a Coríntios 13.1-7, onde Paulo pede que seja o indivíduo a se disciplinar a si mesmo; em 1a Timóteo 1.19, o entregar ao acusador tem descrição específica em termos de remediar ou redimir os disciplinados.
42Veja a correlação com Marcos 9.33-37; 10.13-16 e Lucas 9.46-48; 18.1-30, onde Jesus coloca a criança no meio dos adultos, numa condição de insignificância e submissão. Em Marcos 10 e Lucas 18, forma parte de um ensino mais geral sobre os destituídos da sociedade que são importantes para D eus em contraste com aqueles que o mundo define como importantes.
43Existe dúvida se a frase “contra ti” (ei"j sev) é original ao texto de Mateus. Pode ter sido um acrécimo para ajudar na compreensão da intensão da passagem, como pode ter sido omitido deliberadamente. O texto grego das Sociedades Bíblicas, quarta edição revisada, e a edição de NestleAland, XXVII mantém a frase entre colchetes (METZGER, 36). MO RRIS (466) defende ser impossível definir aqui qual seria a leitura do texto original.
44É comum pegarer esta passagem e a retirarem do contexto para afirmar que se dois irmãos pedirem uma mesma coisa a D eus, D eus o fará. A questão porém é de dois ou três virem a um acordo “se dois concordarem, entre vocês aqui na terrra, sobre todo assunto que pedirem, lhes acontecerá perante o meu Pai nos céus, pois onde estão dois ou três reconciliados em meu nome, ali estou em seu meio”
(eja;n duvo sumfwnhvswsin ejx uJmw`n ejpi; th`" gh`" peri; panto;" pravgmato" ou| eja;n aijthvswntai, genhvsetai aujtoi`" para; tou` patrov" mou tou` ejn oujr anoi`". 20ou| gavr eijsin duvo h] trei`" sunhgmevnoi eij" to; ejmo;n o[noma, ejkei` eijmi ejn mevsw/ aujtw`n). Note que além do contexto definir a questão da reconciliação de irmãos, a concordância é de estar completamente acertado o assunto—sobre tudo o que pedirem. Refere-se, portanto a uma reconciliação completa, a qual o próprio D eus estabelece!
45No grego, é realmente “talentos sem conta”, já que murivwn está na forma plural, sendo o sentido “múltiplos de dez mil” ou “sem conta” já que não havia numeral maior à disposição no grego. Podia-se especificar quantidades de miríades (murivwn), mas é o maior termo simples de numeração existente no grego.
46Elisabeth Schüssler Fiorenza em MAYS, James Luther, Ph.D., Editor. Harper’s Bible Commentary. “1 Corinthians” New York: Harper and Row, Publishers, Inc., 1988, [O nline] Available: Logos Library System.
47Mateus 26.17-19; Marcos 14.12; Lucas 22.7-13; 1a Coríntios 5.6-8; 11.28-29.
48FRIED LIN, 1.
49STRASSFELD , 9.
50ibid., 17.
51WO LFSO N, 66.
52FRIED LIN, 2 e WO LFSO N, 66.
53WO LFSO N, 81.
54STRASSFELD , 19.
55FRIED LIN, 4-6 e WO LFSO N, 84-86.
56WO LFSO N, 99. Nos dias de Jesus teria-se untado os marcos da porta com sangue num hissopo. 133 Uma planta parecido em certo aspecto como uma bucha, útil para pintar uma superfície. 134 FRIED LIN, 7 e WO LFSO N, 97-98.
57STRASSFELD , 18.
58SCHEINERMANN, 3.
59WO LFSO N, 103-104.
60FRIED LIN, 8, STRASSFELD , 21 e WO LFSO N, 112.
61WO LFSO N, 124. Na época de Jesus, esta resposta ou pergunta teria sido formulada de outra maneira.
62KO LATCH, 222.
63STRASSFELD , 43. 142 WO LFSO N, 122.
64FRIED LIN, 12-13, SCHNEINERMANN, 4 e WO LFSO N 138-140. 144 WO LFSO N, 128.
65FRIED LIN, 21, SCHEINERMANN, 5 e STRASSFELD , 22-23.
66SCHIENERMANN, 5.
67SCHEINERMANN, 6-7.
68Este midrash é um acréscimo à celebração, mas provém desde antes de Jesus.
69Um Midrash é um comentário sobre o texto bíblico.
70FRIED LIN, 21 e SCHEINERMANN, 7.

71STRASSFELD , 23 e WO LFSO N, 170. 152 STRASSFELD , 22. 

Ig Ass Tabernáculo de DAVI
Pastor Pedro Alves

Nenhum comentário:

Postar um comentário